terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A VIAGEM DE UMA VIDA

 EXCERTO DE UMA BIOGRAFIA

I

São 23 horas! Lá fora reina o silêncio de uma guerra com horas marcadas.
A menina, já mulher, que docemente lhe chamam Cita, aconchega-se nos lençóis, pensando que os homens apenas se tornaram crianças e, por breves instantes, resolveram a brincar às guerras!
Amanhã, quando acordar, tudo estará com dantes: A avó estará à sua espera com uma taça de flocos, como só ela sabe fazer; a colega de sempre, estará junto ao portão, de mochila às costas, seguindo juntas para o liceu; a Laica, fiel companheira, ladrará à sua passagem dando-lhe os bons dias. Amanhã, quando acordar, o seu mundo estará no mesmo lugar, no ponto onde tudo era perfeito!
Fecha os olhos …adormece….
-Cita…Cita…acorda filha… rápido! Chegou a hora!
A voz soa-lhe a familiar, mas a mensagem é-lhe profundamente estranha e perturbadora. O pai junto à cama, mostra-se ansioso e Cita percebe de imediato que o sonho morrera e que a partir daquele momento, a realidade dura de uma guerra que não compreende, definiria a sua vida e tudo seria diferente.
As regras estabelecidas à muito, são cumpridas a rigor: luzes apagadas, silêncio absoluto…! Tudo se faz mecanicamente como se o chão fosse algodão e na escuridão, brilhasse o mais esplendoroso sol.
Obedece em silêncio! Os gestos, vezes sem conta ensaiados, como se de uma peça de teatro se tratasse, têm hoje a sua grande estreia! Hoje não é ensaio, hoje é a sério!

À meia-noite, em ponto, começa a viagem! E que viagem!
Pensou dentro da sua inocência que seria uma grande aventura e no regresso, levaria alguns serões a contar as peripécias. Seria concerteza considerada uma heroína e esse pensamento encheu-a de vaidade!
Breve foi o seu devaneio! Olhou em redor e na carruagem onde estava, cheirava a tristeza, dor! Percebeu que a aventura não era de descobertas, de mistérios, mas de perdas, de vidas interrompidas e sonhos desfeitos.
Fixou o olhar naquela senhora de meia-idade que tricotava sem cessar! Pensou: deve estar a fazer uma camisola! E, com a velocidade com que cruzava as agulhas e passava a linha, logo logo, a camisola laranja e verde, andaria cobrindo o corpo de alguém!
Estranhou o olhar parado, distante, sem luz, daquela senhora! Se não prestar atenção, ainda fica um buraco na camisola – pensou!
O barulho de um forte apito e do movimento brusco do comboio em movimento, trouxe-a de volta! Agora era o cheiro que a incomodava.Comida...cheiro de comida! Achou que estava tudo louco!
Então, este não é o mesmo comboio que a levava todos os anos para as férias grandes, na praia? Isto é uma simples viagem, ora essa! É preciso levar tanta comida, tanto saco, tanto trapo?
Reparou que ao seu lado, ia apenas um saco da TAP de viagem e o cão de peluche (recebido à pouco tempo no aniversário)! Assim é que é, pensou! Para a viagem o indispensável, nada mais!!!!

-Cita, vê se dormes! Tens uma longa viagem pela frente e não sei se no barco vais ter condições para dormir! A mãe ao seu lado, arranca-lhe a fuga da realidade com esta frase!
Não ia para férias, não ia para a praia! Ia fugir da guerra! Dos homens que perderam a inocência e que resgataram, como se fosse deles, a sua vida!
Hoje, pela noite dentro, ia deixando para trás a única vida que tinha conhecido.A casa, a familia, os amigos, tudo ficava para trás.Nada voltaria a ser como dantes! E fazia-lhe muita espécie não entender isto! O porquê?
Cita sempre se tinha revelado uma criança curiosa e se a um “porquê?”, a resposta fosse um “porque sim”, levavam no retorno com mais “mas porquê?”. Esta curiosidade revelaria-se bem mais tarde, numa opção de vida!
Adormece embalada pelo movimento hipnótico do comboio...pouca-terra...pouca-terra...pouca-terra....

II
 Ao chegar ao cais vê que não está só!
São milhares de pessoas. Precisamente 2.640 pessoas. Este número ficará gravado na sua memória para sempre.
É este número que a acompanhará dois dias, espalhado pelo convés de um barco gasto. Não há um espaço livre, apenas buracos onde pessoas se encaixam, se amontoam.
Chega a hora!
A mãe, como todas as mães deste mundo, mostra-se firme, corajosa! No entanto, no seu olhar é só dor, é só saudade!
Mas sabe que o único caminho para preservar a inocência de uma menina de 14 anos, é pô-la naquele barco de minério, rumo a Luanda de onde seguirá para Lisboa na ponte aérea.
Não há saída possível! Aquele barco é a tábua de salvação para a filha, a sua princesa tagarela!
Num abraço em silêncio, totalmente em silêncio, mãe e filha, resgatam todo o amor, toda a cumplicidade e, por momentos, esquecem tudo o que existe lá fora.
Não falam no tempo que estarão separadas, não falam da incerteza desta viagem, do desconhecido mundo que irá encontrar noutro país que embora fale a mesma língua, nunca viu, nunca cheirou.
Cita, como sempre, tenta ver o lado positivo da vida e com as lágrimas a correr pela cara, sorri e diz à mãe:
 - Deixa lá mãe! O Cabeto (diminutivo que adoptou para chamar o irmão, Carlos Alberto) foi à tua terra passear, mas foi sempre de avião.Olha para mim, sou muito mais importante: vou de comboio, de barco e de avião.Diz-lhe isso ao chegares a casa! E, não te esqueças: no Natal, quando regressar, quero aqueles óculos de sol amarelos para parecer um girassol!
A mãe sorriu! Percebeu (ah! como as mães percebem tudo...) que a tagarelice era para esconder o medo lhe assaltava a alma.A dor da partida era visceral, física, insuportável...

III
- Com licença...por favor, deixe-me passar...
 Cita correu, furou por entre aquele mar de gente para chegar ao topo do barco.Precisava de acenar à mãe; precisava de a ver; precisava de lhe dizer só com o olhar: “Estou aqui, está tudo bem!”
Após enorme esforço, conseguiu um lugar privilegiado. Dali podia ver toda a costa. No cais, centenas e centenas de contentores com histórias de vida lá dentro. Irão, também eles, viajar para o outor lado do oceano.
Fixou o olhar num vulto, com calças de sarja azul e uma camisola cor-de-rosa! Era a sua mãe, sentada em cima de um contentor.
Levantou a mão e acenou-lhe...acenou-lhe...acenou-lhe…
À medida que o barco de minério sulcava as ondas, aquele vulto foi ficando cada vez mais um ponto pequeno, pequenissimo na linha do horizonte.
Foi dinimuindo, diminuindo, diminuindo...já nada havia ao fundo...só o mar!
 - Assim ficas com dor no braço de tanto acenar.Já não está lá, vês? É só mar! Diz-lhe a senhora que, supostamente, seria o seu anjo da guarda nesta viagem!
Cita, olhou-a e com o rosto cheio de lágrimas e respondeu-lhe:
 - Não preciso de a ver para saber que ela está lá!
Baixou o braço, aconchegou o cão de peluche contra o peito e deixou-se ficar ali, naquele lugar e, durante dois dias, ali ficou olhando a linha do horizonte: e via a mãe, sentada num contentor, a fazer-lhe adeus!
E a viagem tinha começado! A viagem de uma vida, para toda a vida!
EME
Tela de Mário Pacheco




2 comentários:

  1. Cita, de arrepiar a tua história !
    Carzalberto.

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  2. Gostei muito da história que contaste, tão vivida, que não sei até que ponto faz parte de memórias reais. Muito bom. E claro, o fundo Klimt é soberbo. Boa sorte para este filho recém-nascido. Sabe bem, não é? Amiga, um abração

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