sábado, 28 de maio de 2011

HOMEM QUE FUI, ESTÁTUA QUE SOU





"Estátua viva de Antero Quental", foto by Alberto Correia
 
Passo o olhar …rostos inexpressivos, saltimbancos do circo da vida, corriam.
Tem o tempo, aquele que foge quando o queremos resgatar. Sinto-me espectador de uma peça de teatro, sentado naquele banco… único no meio da multidão. Tem a coragem de pegar no relógio e pará-lo. Não há horários, não há agenda a cumprir, não há nada…rigorosamente nada, a não ser o meu desprendimento assumido de uma vida a correr. Sou dono do tempo, sou dono daquele momento. Sou um “voyeur”…fascinado, quase excitado com esse estado de espiar a vida que corre à minha volta.
Acendo um cigarro…inspiro lentamente o fumo…expiro-o…contemplo a nuvem acinzentada que da minha boca saí…prazeres de alma que matam o corpo. Não me importo! Hoje quero mesmo esses prazeres e que se lixe o corpo…
Não resisto…lanço um olhar de macho à mulher que caminha languidamente com um vestido solto que ao ritmo dos seus passos cadenciados, insinua um corpo apetecível. Passa por mim e deixa-me o rasto de perfume sofisticado misturado com o cheiro do meu cigarro…apetecia-me dizer-lhe que a minha alma acaba de sentir o prazer de um momento, como o flash da minha Canon quando dispara. Fico pela vontade…fico pela intenção… mas não resisto…disparo, disparo…roubo num instante aquela mulher sensual e retenho-a na minha máquina…não lhe digo o meu prazer, mas fico com ela.
Ouço gargalhadas…viro a cara e vejo um grupo de jovens…descomprometidos com a vida. Já fui assim também. O amanhã era apenas uma conjugação verbal, mas o presente…ah, o presente era consumido à velocidade dos sonhos. Nesse tempo, olhava o horizonte e via miragens que eram concretas, reais. Acreditava, tinha a coragem de um guerreiro e a força da lava que rompe o vulcão.
Retomo o olhar, agora cansado, desencantado. Fixo-o no homem que sentado num pedaço de cartão, toca viola. Os acordes são dolorosos, como é dolorosa a sua vida. Espanta-me o sorriso rasgado que dá a quem passa. Oferece-o simplesmente, sem nada em troca. Fecho os olhos e embalado pela melodia, sinto-me também vagabundo…quero pegar na mala do meus sonhos (sim, apesar de tudo ainda tenho e são imensos) e embarcar sem rumo, sem destino. O que me importa é a viagem e não o destino. Quero parar onde os meus olhos se perdem e consumir o momento que vale a vida inteira. Quero consumir todos os sabores, quero absorver todos os cheiros e amar de todas as formas…
Abro lentamente os olhos…
Sinto-me inerte…estático…estou imóvel…
- Olha! É um homem estátua! – Oiço alguém dizer.
De repente, percebo a minha condição!
Sou uma estátua de rosto branco que por breves minutos, viveu a condição de Homem!
EME

1 comentário:

  1. Boa noite, Elsa querida!
    Antero de Quental é sempre benvindo.
    Gostei do texto.
    Beijos e ótima semana pra ti.
    Mara

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