sábado, 23 de junho de 2012

Julguei....


Julguei que a vida era bola de sabão
 Soprada
Foto By José Oliveira
 Colorida...
Julguei que na palma da mão
Ficava permanente...
Crescendo...
Com multicores a bilhar

Julguei ver formas...
Movimento...
Hipnotizante...

Julguei que bola de sabão era sonho
Que na minha mão crescia
Leve como uma pena.


Julguei...
Julguei..,




E de repente...
Evaporou-se...
Esvaneceu-se no vento que passava.
Foto By José Oliveira


E a vida que era bola de sabão
Soprada...
Colorida...
Molhou a minha mão
De lágrimas
Do sonho desfeito dentro de uma bola de sabão!

domingo, 3 de junho de 2012

Conversa à Beira-Mar com o Escritor Sandro William Junqueira


Breve nota:
O acaso levou-me até Sandro.
Na compra de um livro que, por acaso era o dele, conjugaram-se vários factores que permitiram que esta nossa conversa acontecesse.
Partilho assim, breves trechos de quase 3 horas de uma conversa solta, sem guião, à beira-mar, como podia ter sido noutro lugar. Foi aqui por minha sugestão e parece que estivemos de acordo. O som do mar, o cheiro a maresia, deram o tom perfeito para conhecer este homem da Arte, onde a escrita surge como “uma necessidade”.
Apresento-vos Sandro William Junqueira

Sandro William Junqueira, nascido na Rodésia, país que já não existe, vem para Portugal aos 2 anos de idade e até aos 12 anos, vive em várias cidades, recomeçando e reconstruindo referências e amizades. Este facto irá marcar a sua escrita: 
Sou um desenraizado. Os lugares dos meus livros podem ser qualquer lugar. Deixo ao leitor essa liberdade de imaginar. Os lugares da acção não têm nome, tal como os personagens. Na minha escrita, o leitor tem a liberdade de poder intervir na narrativa. Não está lá tudo, nem tem de estar. Bertold Brecht disse: “Uma história em que se percebe tudo é uma história mal contada”. Concordo em absoluto. Na minha perspetiva, um bom livro deve dar espaço ao leitor para que este possa intervir. Na minha opinião, a boa narrativa não é aquela que cumpre cronologicamente, um encadeamento lógico e temporal. A nossa cabeça, a nossa memória, não funcionam assim.

A Escrita…
“Sempre senti necessidade de me expressar através da arte. Por isso, experimentei diversas formas: a pintura, a escultura, a música, o teatro (que é parte fundamental da minha vida profissional). A escrita apareceu, mais tarde, aos 25 anos. Percebi que era o lugar eleito. O lugar certo. Tinha encontrado o espaço onde me poderia expressar sem condicionantes de nenhuma ordem. Escrevo como quero, sobre o que quero. A escrita é, para mim, o maior espaço de liberdade individual.
Parto para a escrita com total inocência e ingenuidade. Nunca faço planos do que vou escrever. Nem tenho história. Por exemplo no “Um piano para cavalos altos”, começou com a imagem de uma criança a ser amarrada, pela mãe, a um piano. Na altura não tinha mais nada. E a escrita é o perseguir e o questionar esses “quadros mentais”.
 O acto da escrita é muito físico. Nos dias bons, chego à exaustão. Existem dois momentos. O primeiro: o da matéria bruta, puramente instintivo, inconsciente; é o instante em que desço ao interior do vulcão. Depois, vem o segundo momento, doloroso, em que a parte racional entra com o bisturi: e é corrigir, e cortar, e corrigir, e cortar. Sabe, comparo este processo com isto: imagine uma camisa muito amarrotada. Ao engomarmos a camisa, ao passarmos a camisa ao ferro uma vez, teremos de voltar atrás, ainda estão lá as rugas, e passamos novamente o ferro, uma e outra vez, e repetimos este movimento até a camisa estar bem passada. Sem rugas.

A estrutura do seu livro “ Um piano para cavalos altos” aparece como uma composição musical. Dividido em Sonata de Inverno e Concerto de verão, os capítulos são Gymnopédies , referência à composição de Satie. Fale-me desta construção e a relação com o mundo da música.

“Gostava de ter sido pianista. Emociono-me sempre quando vejo um pianista a tocar. É uma relação muito física. Adoro o piano, embora não tenha nenhum talento para o tocar. Em vez, escrevo o melhor que sei e posso. E, existem momentos, quando estou a teclar, a escrever no computador, que me sinto pianista; as teclas com o abecedário transformam-se por momentos nas notas do piano. E ouço a música e componho. A música é um grande mistério. É a forma de arte mais universal. Muito mais antiga do que a linguagem. Julgo existir uma estreita ligação entre a escrita e a música. Quantos livros deram fabulosas composições musicais e quantas delas deram excelentes livros. Escrevi todo este livro ao som do Concerto nº2 para piano de Rachmaninov. No fundo, gostava de atingir os leitores com a mesma força, como a música me atinge a mim.

Do Bem, do Mal e do Mundo
"Vivemos numa ditadura financeira. Onde é que está o dinheiro? É a única questão. Não é o ser ou não ser. Isto é aterrador e angustiante. Colocámos a tabuada à frente do Ser Humano. Se há esperança? Não gosto dessa palavra. Portugal sofre de um mal terrível. Apesar deste clima e povo extraordinário, Portugal nunca passou por uma reconstrução. Grande parte dos outros países foram obrigados a uma reconstrução, começar do zero, da terra devastada. Assim, somos um país velho e podre até à medula. A corrupção, a impunidade, é tanta e está de tal forma instalada que dá asco."

Para finalizar, um desafio.
Em poucas palavras, definir:
 A Vida: “Não compreender.”
A Escrita: ”Escrever é gritar baixinho.”
EU: “Sou muitos.”
Esta Conversa: “Uma partilha.”

E, numa tarde quente, coberta de nuvens, à beira-mar, um “Eu escritor” que é muitos, honrou-me com a sua companhia, porque para além de um promissor escritor, de elevadíssima qualidade, consegue provocar-nos com a sua Arte.
Bem-haja !