sábado, 11 de agosto de 2012

A Tua Sombra


Domingo…dia de festa.
A praça decorada com flores de papel, de cores garridas, parecia uma moça namoradeira com vestido de chita.
Reinava a alegria e as raparigas da aldeia passeavam-se pelos passeios de braço dado, olhando de soslaio para os rapazes que, na esplanada, assumiam ares de Don Juan.
No centro da praça, no palco de contraplacado, já soavam os acordes musicais do acordeão.
Mal a melodia começou, os rapazes levantaram-se e ajeitando o chapéu, lançam o olhar à escolhida.
...
Olhou em redor…pares já redopiavam na pista improvisada. Uns mais formais, outros mais íntimos, mas todos numa sintonia perfeita.
Hoje sente que não vai encontrar par. Falta-lhe inspiração.
Deixa-se ficar encostado ao alpendre que lhe oferece sombra e acende um cigarro….pára…fica com o cigarro na boca, ainda apagado e o isqueiro aceso na outra mão…
Vê-a!
Cabelos longos pretos, soltos em farta cabeleira, caem pelos ombros desnudados .
Traz  um vestido de chita branca, justo até à cintura de saia rodada. Um decote generoso deixa à vista um peito formoso, profundamente sensual. Enrolado no pescoço fino e esguio, uma encharpe Azul, da cor do céu onde brilhava aquele sol abrasador.
Ao ritmo da música que toca, abana as ancas, perfeitas…
Aquela visão corta-lhe a respiração… naquela tarde de domingo, afinal, tinha encontrado a melhor inspiração dos seus dias…Ela.
(…)
- Não me convidas para dançar? – Ouve um sussurro que lhe pareceu, uma sinfonia celestial.
Olham-se profundamente e em silêncio, lado-a-lado , assim ficaram a ver o Amor a chegar…
(…)
E voltámos ao mesmo lugar onde nos conhecemos.
No mesmo sitio, com o mesmo sol, onde um dia, tu com ar matreiro, disseste-me:
- Posso oferecer-te a “ minha sombra”?
E eu apenas sorri…

Hoje, de pele enrugada, memória apagada, lado-a-lado, a tua sombra continua aqui…e é só dela que preciso”


"Guarda-sol" by José Oliveira