sexta-feira, 28 de setembro de 2012

"Oração ao Sol"


Nuvens em flocos de algodão, brancas e cinzentas, prelúdio de uma natureza que começa a declinar, bailam como se o céu fosse uma pista de dança.
Sopra um vento ameno, misto de um quente que arrefece lentamente.
Olho em redor e vejo-o ali cabisbaixo, neste fim de tarde com sabor a Outono.
De semblante inexpressivo, sem vida, quase estátua gasta e abandonada.
Penso:
- O fim da linha! O sangue corre-lhe nas veias, mas a vida apagou-se.

Sinto ao meu redor as sombras que vão parecendo.O Sol, escondido atrás das densas nuvens, é agora um rasgo de luz, como se uma espada fosse e que pela força de uma vontade inquebrável, tivesse cortado a meio as paredes de uma prisão.
Fecho os olhos e deixo-me acariciar por este inesperado calor de luz.
 Não estou só nesta entrega.
Ele que antes, era vida esvaída, é agora um rosto erguido, vibrante, pujante, iluminado pelo raio do sol que parece só existir apenas para ele.
Fico imóvel; em suspensão. Não quero que o meu respirar perturbe aquele estado hipnótico, quase ascético que em frente de mim, acontece. O mundo em redor pára: não vejo nada, não oiço nada a não ser a voz que em mim vai crescendo.
Não sou mais eu...

...

 Perdi a fé!
 Rezei a todos os deuses;
Implorei a todos os anjos;
Cantei a mais bela Ode à divindade.
E apenas o inferno se tornou casa
O purgatório, o caminho
E o céu, a miragem.
Ardo por dentro sem calor;
Sou estações do ano sem transformação;
E o cheiro das acácias ...
Ah! onde está o cheiro das acácias?

 Afaga-me...
  Mata este frio que se fez alma
  Dá vida esta morte lenta que me consome


Penetra-me...
Quero sentir-te mulher
Amante nas noites deste meu entardecer
Nos teus braços encontrar a mansidão 
E simplesmente adormecer.

Restas-me tu, Sol!
A única carícia, o único afago, a única luz que sinto
nestes meus dias sem esperança,
onde o dia se fez noite
e a vida se tornou morte.
...

Escurece!
Abro os olhos.
O Sol partiu e no lugar daquele homem há agora uma estátua de rosto brilhante, cheio de luz a que todos chamam:
" Oração ao Sol"

Foto by José Oliveira


1 comentário:

  1. Estupenda oração ao Sol, prosa e poesia das mais sentidas que já li. Uma ode ao tempo que passa, ao que está ausente mas continua presente!
    Parabéns!

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