terça-feira, 23 de julho de 2013

Suavemente parte ...

Já não interessa!
Os dias, vagos e imprecisos são retalhos do tempo que foi, do tempo que já não volta.
As manhãs estão forjadas pela insónia que a calada noite reclamou o desassossego de uma alma já quebrada
Travam-se dolorosas batalhas.
 Tenta-se conquistar o território que nunca nos pertenceu e perde -se dia a pós dia, o espaço que julgámos já nosso.
Lenta e suavemente desistimos, porque até o corpo já não tem  mais força para se erguer.
Já não interessa!
Afinal, nada nos pertence, nem a própria vontade de continuar a lutar.
Foto by Eme

Ponto de Encontro


Embateram-se 
O Antes
O Depois
Há apenas um ponto
Hoje
Um ponto de Encontro
Naquele ponto preciso
Onde o olhar se fixa
O corpo se agarra 

E a alma se perde.

Deixa - me infinito!
Sou perene,
Efémera,
Volátil;
Só vou existir aqui
Neste ponto onde me encontro
Ali...no meio
Onde existes
Cruzado em Mim

Foto by Eme


A mentira que se vê

Ali sorrindo está quem sempre sonhou
Aqui a alma que se desmoronou
Ninguém vê
Sou assim
Alegria por fora
Tristeza por dentro
E tu espelho és o único
Que me vê nua, Sem a mascara 
Com que me visto para sair à rua.
Quero partir-te em mil bocados
Estilhar-se para me ver em ti
tal como estou...
Mas teimas em ficares completo
Reflectindo-me inteira
Inteira deste vazio
Inteira de coisa nenhuma.
E ali...
Continuo a sorrir
Que a vida continua.

Foto by Eme




Eu, Ela e as memórias que nos fazem assim


Eu sou um barco e ela uma rede de pesca
Cruzá-mo-nos por acaso, como tantos acasos que viram a caso.
Achei
-a bonita. Azul, daquele que me faz falta.
Ela achou-me piada por me ver a sorrir para ela.
Soprava uma leve brisa naquele fim de dia.
Pelo jeito, temos gostos em comum. Gostamos desta hora do dia, onde o sol e a lua, cada um do seu lado, dão ao dia metades de si.
Sentei-me ao seu lado. O vento que soprava fazia esvoaçar os meus cabelos e a pequena franja da rede.
Conversámos.
Do barco que sou, da rede de pesca que é.
Contou-me que nas suas malhas, milhares de peixes se aninharam. Falou das noites de lua cheia que vestiam o mar alto de prata. Das canções que os pescadores entoavam nas noites de tempestade para espantar o medo. Do gélido mar que a fazia tremer e como era doloroso carregar tanto peixe dentro de si. Por fim, saído quase como um sopro, sussurra baixinho o nome do pescador que pela última vez a lançou ao mar e como ficou nas mãos dele, a alma dela.
Sou um barco, disse-lhe. Mergulhei vezes sem conta no Mar azul, daquele que tanta falta me faz. Fomos feitos um para o outro. Nas tempestades fazia-lhe companhia e deixava-me ficar ao sabor das gigantes ondas. Nos dias de calmaria, baloiçava suavemente nas suas águas e deixava-mo-nos ficar naquele silêncio que diz tudo.
Fui envelhecendo, cansada das tormentas e lentamente, um pequeno rasgo foi ficando, ficando e quando percebi, já não era mais um barco, era apenas um esqueleto sem pele. Ainda hoje, o Mar pergunta-me: porque não baloiças nas minhas vagas? Sorrio para ele e deixo-me ficar.
 
O meu Mar sorridente, vai suavemente para lá e para cá, nas marés que o fazem assim imenso e eu junto dele, deixo-me ficar à espera que o tempo passe e alimento a ilusão que um dia, voltarei a baloiçar nas águas deste Mar , nem que seja por um breve instante.

Olhámos uma para a outra.
- Sabes, eu não sou uma rede de pesca!
- Nem eu, um barco!
Ficámos em silêncio, lado-a-lado, cúmplices das memórias que nos fazem sonhar que poderemos novamente, navegar.



Foto By Eme