terça-feira, 23 de julho de 2013

Eu, Ela e as memórias que nos fazem assim


Eu sou um barco e ela uma rede de pesca
Cruzá-mo-nos por acaso, como tantos acasos que viram a caso.
Achei
-a bonita. Azul, daquele que me faz falta.
Ela achou-me piada por me ver a sorrir para ela.
Soprava uma leve brisa naquele fim de dia.
Pelo jeito, temos gostos em comum. Gostamos desta hora do dia, onde o sol e a lua, cada um do seu lado, dão ao dia metades de si.
Sentei-me ao seu lado. O vento que soprava fazia esvoaçar os meus cabelos e a pequena franja da rede.
Conversámos.
Do barco que sou, da rede de pesca que é.
Contou-me que nas suas malhas, milhares de peixes se aninharam. Falou das noites de lua cheia que vestiam o mar alto de prata. Das canções que os pescadores entoavam nas noites de tempestade para espantar o medo. Do gélido mar que a fazia tremer e como era doloroso carregar tanto peixe dentro de si. Por fim, saído quase como um sopro, sussurra baixinho o nome do pescador que pela última vez a lançou ao mar e como ficou nas mãos dele, a alma dela.
Sou um barco, disse-lhe. Mergulhei vezes sem conta no Mar azul, daquele que tanta falta me faz. Fomos feitos um para o outro. Nas tempestades fazia-lhe companhia e deixava-me ficar ao sabor das gigantes ondas. Nos dias de calmaria, baloiçava suavemente nas suas águas e deixava-mo-nos ficar naquele silêncio que diz tudo.
Fui envelhecendo, cansada das tormentas e lentamente, um pequeno rasgo foi ficando, ficando e quando percebi, já não era mais um barco, era apenas um esqueleto sem pele. Ainda hoje, o Mar pergunta-me: porque não baloiças nas minhas vagas? Sorrio para ele e deixo-me ficar.
 
O meu Mar sorridente, vai suavemente para lá e para cá, nas marés que o fazem assim imenso e eu junto dele, deixo-me ficar à espera que o tempo passe e alimento a ilusão que um dia, voltarei a baloiçar nas águas deste Mar , nem que seja por um breve instante.

Olhámos uma para a outra.
- Sabes, eu não sou uma rede de pesca!
- Nem eu, um barco!
Ficámos em silêncio, lado-a-lado, cúmplices das memórias que nos fazem sonhar que poderemos novamente, navegar.



Foto By Eme






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